Um conto sobre o amor verdadeiro que escrevi em 1998...

Era uma vez uma princesa sobre a qual pairava um feitiço. Como vivia no deserto, as pessoas foram-se esquecendo que ela existia e, ao fim de uns anos, já ninguém tinha dela senão uma vaga lembrança.

Um dia, um rapaz decidiu partir da sua terra e fazer uma viagem. Já estava farto de fazer sempre as mesmas coisas e queria aventurar-se pelo mundo. Despediu-se da sua família, e, com algumas provisões, num saco às costas, partiu.

Certo dia, depois de muito tempo a caminhar, e de já começar a ficar cansado, reparou que a paisagem à sua volta tinha começado, pouco a pouco, a ficar desértica. Ainda assim, não parou e continuou o caminho.

À medida que ia entrando mais fundo no deserto, mais cansado ia ficando. O rapaz já não tinha vontade de andar e perguntava a si próprio por que raio é que tinha começado aquela estúpida viagem.

Longe do aconchego da sua antiga casa, o rapaz sentiu-se sem forças, deixou-se cair de joelhos no chão, e começou a chorar.

Tinha perdido toda a esperança e estava muito cansado. Só via areia à sua volta e não sabia para onde ir. Decidiu deitar-se para dormir ali, pois já não sabia o que fazer.

À noite, chegou o frio, e o rapaz não conseguia dormir. Estava gelado e, por mais que se cobrisse com a sua manta, não se conseguia aquecer. A tristeza invadia completamente a sua alma e as lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto.

Então, encolhido e a tremer, na noite fria e gelada do deserto, o rapaz ouviu, ao longe, uma voz muito suave a cantar.

Primeiro julgou que fosse apenas a sua imaginação ou o som dos seus dentes a tilintar, mas, depois de algum tempo, viu que era realmente uma voz vinda do deserto.

Começou a escutá-la.

Era uma voz doce, cheia de Amor, e parecia estar a chamá-lo. Decidiu levantar-se e segui-la, pois não queria ficar ali e morrer de frio.

Foi sempre caminhando, embora não soubesse de onde a voz vinha e portanto, não soubesse muito bem para onde ir. Contudo, confiava em algo que começava a crescer dentro dele e que o guiava através do deserto.

Depois de algum tempo a caminhar percebeu que, para onde quer que se dirigisse, nunca deixava de ouvir aquela maravilhosa melodia. Na mesma altura, compreendeu que não precisava de andar mais à procura, porque a voz estava em todo o lado.

Então, o rapaz parou e perguntou: - Quem és tu que, com esse canto tão belo, me enches o coração de Amor, onde quer que eu esteja?

Alguns instantes depois, veio a resposta: - Eu sou a princesa à espera do cavaleiro. - respondeu-lhe a voz.

O rapaz não compreendeu: - Mas então porque me chamas? Eu não sou nenhum cavaleiro... – disse ele.

A princesa sorriu com ternura.

- Já olhaste bem para o teu coração? – perguntou-lhe.

Depois de ouvir a princesa dizer estas palavras, o rapaz olhou para o seu peito e viu que tinha, junto do coração, uma fénix, a ave que, através dos tempos, sempre tinha sido o símbolo dos cavaleiros do deserto. Ficou espantadíssimo.

- Então... estás à minha espera? – perguntou ele.

- Sempre estive... – disse a princesa.

- Mas..., porque é que só te encontrei agora, ao fim de tanto tempo?

- Porque só agora chegaste ao deserto, que é onde eu estou.

O cavaleiro estava agora muito contente e começava a perceber a razão de toda a sua vida até àquele momento. Na verdade começava já a encher-se de Amor pela princesa e depois de algum tempo, fez-lhe um pedido: - Gostava de ver como és. De conhecer a dona da voz mais doce e cheia de Amor que ouvi até hoje.

- Tens a certeza? – Perguntou a princesa.

- Sim, claro – respondeu ele, com segurança.

- Mesmo que eu não seja aquilo que tu esperas que eu seja? – insistiu ela.

- Sim – respondeu novamente o cavaleiro.

O deserto ficou em silêncio por um instante. Depois a princesa disse: - Se me queres mesmo ver, olha para a tua esquerda.

Quando se virou, ele viu um pequeno oásis com árvores e um lago de água cristalina. Por trás de uma das árvores, apareceu a princesa.

Ao vê-la, o cavaleiro não conseguiu disfarçar a sua surpresa e desilusão. Ela era horrível. Era baixa e velha, tinha a pele enrugada, o rosto disforme, e cabelos brancos, a caírem-lhe, por uma pequena corcunda nas costas.

A princesa, ao perceber a desilusão do cavaleiro, ficou um pouco envergonhada.

Ele não sabia o que dizer.

Ficaram os dois em silêncio, imóveis.

Foi a princesa que recomeçou a falar: - Compreendo a tua desilusão. Se quiseres eu permanecerei oculta e poderás ouvir apenas a minha voz. Dar-te-ei ajuda e conselhos nos momentos em que precisares, mas não terás que estar comigo, o que te livra de me teres de ver.

Depois de ouvir aquelas palavras o cavaleiro manteve-se em silêncio, e pensou muito.

Pela primeira vez, olhou profundamente os olhos da velha princesa e viu que estavam a brilhar.

Minha querida princesa, - disse o cavaleiro - na verdade não posso continuar apenas a ouvir a tua voz. Não posso, porque desejo estar contigo, sempre e em todos os momentos da minha vida. Agora que olhei pela primeira vez os teus olhos, vi-me a mim, reflectido neles. Nesse momento, percebi quem eu sou. No mesmo instante, percebi quem tu és. Tu és o meu destino.

Amo-te.

Depois do cavaleiro dizer estas palavras, o feitiço que tinha sido lançado sobre a princesa, quebrou-se, e o cavaleiro constatou que, na verdade, ela era mais bela do que tudo o que ele alguma vez tinha visto. Aproximaram-se um do outro e beijaram-se, unidos pela eternidade.

Finalmente, tinham-se encontrado.

11 comentários:

André disse...

Olá Ricardo desde já bem-vindo ao facebook. Não sabia que tinhas um blog mas de qualquer modo, já que o descobri optei por vir aqui dizer qualquer coisa. Também eu tenho um blog, já há alguns anos mas, vais-me perdoar se não o divulgo, é um espaço pessoal sem face onde as ideias são apenas lidas por estranhos que por acaso lá passam.
Quanto ao livro, sabes que gostei bastante de o ler, devorei-o rapidamente assim que mo entregaste há tantos anos atrás ainda nas velhas disquetes no inicio da minha adolescência, já o li depois de editado já em adulto e espero voltar a lê-lo numa outra fase da vida pois terá sem duvida outro significado. No inicio nunca pensei que o publicasses mas fico contente que o tenhas feito e orgulhoso por ter sido dos primeiros a lê-lo.
Já agora, andei a dar umas saltadas de blog em blog e descobri que há muitas pessoas com algo a dizer sobre o teu livro e que de um modo ou de outro se sentiram reflectidos nas tuas palavras. Aqui ficam alguns exemplos se tiveres curiosidade.
http://fumandopensativocigarro.blogspot.com/2008/09/um-bom-livro.html
http://kiacu.spaces.live.com/blog/cns!7A3AE8F7E5C65B8D!723.entry
http://pontoquente.blogspot.com/search?updated-min=2009-01-01T00%3A00%3A00Z&updated-max=2010-01-01T00%3A00%3A00Z&max-results=4
http://omeupequenocantinho.blogs.sapo.pt/
Um abraço André

Ricardo Antunes disse...

Olá André, obrigado!

Obrigado por partilhares a experiência da leitura do livro!

Eu também de inicio não sabia se iria ser publicado ou não... Mas escrevi-o porque me dava prazer e mais tarde pude partilhá-lo com a familia e os amigos.

Só depois veio a edição.

P.S. Obrigado pela dicas dos blogs. Gostava de espreitar o teu ... :)

abraço!

aislin disse...

"...na verdade não posso continuar apenas a ouvir a tua voz. Não posso, porque desejo estar contigo, sempre e em todos os momentos da minha vida. Agora que olhei pela primeira vez os teus olhos, vi-me a mim, reflectido neles. Nesse momento, percebi quem eu sou. No mesmo instante, percebi quem tu és. Tu és o meu destino."

as coisas seriam tão simples se as pessoas se abrissem assim ao amor. hoje em dia parece que têm medo de se dar, de mostrar fragilidade, de se envolverem. já não se permitem entregar-se à pureza e intensidade de amar e deixar-se amar por alguém... e isso é no minimo chato. complicam coisas tão simples como o amor. manipulam e distorcem os sentimentos e priorizão o prazer físico... só que, taditos, não têm consciencia do que estão a perder...

gostei da história, tem um pouco de pó perlimpimpim das histórias da disney que tanto nos fizeram sonhar na infância...

beijos*

aislin disse...

errata: priorizam

Ricardo Antunes disse...

Obrigado Aislin.

É verdade que os tempos também são outros. E que nós todos tornámos um mundo muito mais complicado.
Mas sim, essa simplicidade é possível e, arriscaria até, necessária.
Infelizmente cada um age de acordo com o estado da sua consciência e todos estamos em estados diferentes.
Só com o Amor se vencem todas essas dificuldades.

Infelizmente nem sempre é possível. E devemos respeitar aquilo que cada um escolhe para a sua própria vida.
Está porém nas nossas mãos, decidir o que também nós escolhemos para a nossa.

Espero que estejas bem!

Obrigado por escreveres.

Beijinhos,

Ricardo

Patrícia disse...

Que lindo! Foi escrito por ti? Tanto Amor, espalhado por o mundo. Que se cultive!

Ricardo Antunes disse...

Sim, fui eu que o escrevi há vários anos...
Obrigado Patricia!

Adriana ♣* disse...

Ai... estou arrepiada... emocionada...

Você é uma jóia rara!

"... a voz estava em todo o lado."

Você viu e sentiu o amor na sua própria pele.

"...na verdade não posso continuar apenas a ouvir a tua voz. Não posso, porque desejo estar contigo, sempre e em todos os momentos da minha vida. Agora que olhei pela primeira vez os teus olhos, vi-me a mim, reflectido neles. Nesse momento, percebi quem eu sou. No mesmo instante, percebi quem tu és. Tu és o meu destino."

Para além da aparência física está o verdadeiro amor...

E deixo aqui essa citação que coloquei no meu blog:

OS OLHOS NUS

Em verdade vos digo que chegará
o dia em que a nudez dos olhos será
mais excitante do que a nudez do sexo.

Lygia Fagundes Telles

.: Refinadíssimo e para o alcance de poucos :.

Como você está entre os poucos que tem a "visão além do alcance", essa frase condiz perfeitamente com a sua alma.

Abs,

Adriana

Adriana ♣* disse...

O seu nome é delicadeza e o seu sobrenome é sensibilidade.

Tudo à flor da pele!

Algumas questões básicas:

Você existe? É de verdade? De carne e osso?

Se estivesse em Portugal gostaria de conferir pessoalmente...

Precisamos rapidamente pedir para os joalheiros que fizeram você (ou seja, seus pais), a receita (com todos os ingredientes), para que possamos distribuir (com o devido cuidado obviamente) e assim multiplicar o números de seres com essas mesmas qualidades.

Eu, de todo coração, aspiro que seres como você, possam ser cada vez mais a maioria nesse planeta.

Abs,

Adriana

Ricardo Antunes disse...

Olá Adriana,

Que enxurrada de comentários tão grande... Estás mesmo a ler o blog todo e a comentar cada mensagem?!?! Obrigado pelo entusiasmo e pelo apoio. Estava aqui em pensar em responder aos teus comentários mas primeiro queria ver todos.
Claro que existo, a prova disso para já é estar a responder. Quanto aos elogios, são tantos e tão bons que o meu ego está exultante. Em todo o caso, todos nós somos diamantes por lapidar. No meu caso, muito agradeço aos meus pais, mas também aos amigos e de certa maneira aos inimigos que me ajudaram a compreender um pouco melhor quem sou.
Quanto à distãncia, apesar de termos um oceano a separar-nos podemos sempre encontrar-nos por aqui, e é isso que também tem de bom a tecnologia.
Podermos comunicar com toda a gente de uma forma muito rápida.
Bem... vou responder aos restantes comentários.
BEEIIJO

Adriana ♣* disse...

Que bom que você existe!
Sim! Estou lendo todo o blog e comentando a maioria dos posts...
Porque quando encontramos um tesouro ficamos algum tempo em estado de êxtase!
Todos somos diamantes por lapidar, mas no seu caso, a lapidação já veio um pouco adiantada... ;)
Isso não é um elogio, apenas uma constatação!
Com certeza a vida e todos os que passam por ela (família, amigos, inimigos) vão nos ajudando a seguir... aprender, crescer, melhorar...
E na verdade a distância não existe...
Estamos ligados pelo coração!

Beijooooos,

Adriana