Onde estás? Quem és? O que queres? Onde queres ir?

Alguma vez tentaram ver o que se passa em vocês quando a vossa atenção não está concentrada num problema definido? Suponho que para a maior parte de vocês esse é um estado muito habitual, ainda que uns quantos, sem dúvida, o tenham sistematicamente observado. Talvez se dêem conta de como o nosso pensamento procede por associações fortuitas, quando faz desfilar cenas e lembranças sem ligação, quando tudo o que cai no campo da nossa consciência ou simplesmente a toca de leve suscita em nós essas associações fortuitas. O fio dos pensamentos parece desenrolar-se sem interrupção, tecendo entre si fragmentos de imagens, de percepções anteriores, tiradas de diversos registos armazenados na nossa memória. E, enquanto esses registos rodam e se desenrolam, o nosso aparelho formatório urde sem cessar, com esse material, a trama dos pensamentos. Os registos das nossas emoções desfilam da mesma maneira - agradáveis e desagradáveis, alegria e tristeza, riso e irritação, prazer e dor, simpatia e antipatia. Alguém o elogia e você fica contente; alguém o repreende e o seu humor deteriora-se. Qualquer coisa nova o atrai e você esquece-se imediatamente daquilo que o interessava tanto há um instante. Em breve o seu interesse prende-o a essa coisa nova a ponto de você mergulhar nela da cabeça aos pés; e, de repente, não a possui mais, você desapareceu, você está ligado a essa coisa, dissolvido nela; de facto, é ela que o possui, que o mantém cativo, e essa alienação, essa propensão a se deixar cativar é, sob múltiplas formas, a característica de cada um de nós. É isso que nos prende e nos impede de sermos livres. Além do mais, isso rouba a nossa força e o nosso tempo, tira-nos toda a possibilidade de ser objectivos e livres - duas qualidades essenciais para quem decide seguir o caminho do conhecimento de si.


Devemos lutar para nos tornarmos livres, se quisermos lutar para nos conhecer-mos. Conhecer-se e desenvolver-se é uma tarefa de tal importância e seriedade, exigindo tal intensidade de esforço, que tentá-la da maneira habitual, entre outras coisas, é impossível. O homem que empreende essa tarefa deve dar-lhe o primeiro lugar na sua vida, que não é tão longa que ele se possa permitir desperdiçá-la com futilidades.


(…)


Saia à noite, sob um vasto céu estrelado, e levante os olhos para esses milhões de mundos acima da sua cabeça. Em cada um deles provavelmente formigam biliões de seres semelhantes a si, talvez de constituição superior. Olhe para a Via Láctea. A Terra não pode sequer ser chamada de grão de areia nessa infinidade. Ela dissolve-se, desaparece e, com ela, você também. Onde está? Quem é? Que quer? Onde quer ir? Não será o que empreende pura loucura?


Diante de todos esses mundos, interrogue-se sobre os seus objectivos e as suas esperanças, as suas intenções e os seus meios de as realizar, sobre o que pode ser exigido de si, e pergunte-se mesmo até que ponto está preparado para responder a essas perguntas.


Espera-o uma viagem longa e difícil; dirige-se a um lugar estranho e desconhecido. O caminho é infinitamente longo. Não sabe se poderá descansar nem onde isso será possível. Deve prever o pior. Leve consigo tudo o que for necessário para a viagem.


Trate de não se esquecer de nada, porque depois será muito tarde para reparar o erro: não terá tempo de voltar para ir buscar o que tiver esquecido. Avalie as suas forças. São suficientes para toda a viagem? Quando é que poderá partir?


Lembre-se de que quanto mais tempo passar no caminho, mais provisões precisará de carregar, o que retardará proporcionalmente a sua marcha e alongará até a duração dos preparativos. E cada minuto é precioso. Uma vez que decidiu partir, porquê perder tempo?


Não conte com a possibilidade de voltar. Essa experiência poderia custar-lhe muito caro. O guia só se comprometeu a conduzi-lo; não é obrigado a reconduzi-lo. Você será abandonado a si mesmo e ai de si se fraquejar ou perder o caminho; jamais poderá voltar. E, mesmo que o reencontre, fica a pergunta: voltará são e salvo?


Desventuras de toda a espécie espreitam o viajante solitário que não conhece bem o caminho, nem as regras de conduta que ele impõe. Convença-se de que a sua vista tem a propriedade de lhe apresentar os objectos distantes como se estivessem próximos. Iludido quanto à proximidade da meta para a qual se encaminha, cego pela sua beleza e ignorando a medida das suas próprias forças, não se dará conta dos obstáculos que estão no caminho; não verá as múltiplas valetas que atravessam a senda. Numa pradaria verde, juncada de flores deslumbrantes, o mato espesso oculta um profundo precipício. É muito fácil tropeçar e cair nele, se os seus olhos não estão fixos em cada passo que está dando.


Não se esqueça de concentrar toda a atenção no que o cerca de perto. Não se ocupe com metas distantes, se não quiser cair no precipício.


Entretanto, não se esqueça do seu objectivo. Lembre-se dela sem cessar e mantenha vivo o seu ardor por atingi-la, para não perder a direcção certa. E, tendo partido, esteja atento; o que você atravessou ficou para trás e não tornará a apresentar-se: o que não observou num determinado momento, não o observará nunca mais.


Não seja curioso demais e não perca tempo com o que atrai a sua atenção, não vale a pena. O tempo é precioso e não deve ser desperdiçado com coisas sem relação directa com o seu objectivo.


Lembre-se de onde está e por que está ali.


Não se poupe e lembre-se de que jamais qualquer esforço é feito em vão.


E agora pode iniciar a caminhada.

G.I.Gurdjieff



1 comentário:

Adriana ♣* disse...

WOW!

Profundíssimo..

Obrigada!