Evolução ao contrário

Olho para hoje, para o mundo lá fora.
Cada vez mais civilizados, mais sofisticados. No auge da evolução. No pico da tecnologia. Distantes de nós. Distantes do que nascemos para realizar.

Arranha-céus, aviões supersónicos, ipod’s, telemóveis, tv digital, sushi… e a lista podia continuar indefinidamente.
Procurámos a civilização para nos afirmarmos enquanto seres dominantes deste planeta e no entanto o que conseguimos foi construir uma prisão para nós mesmos.
Convenções sobre o que falar, o que comer, que roupa vestir, como andar... como amar.

O paradoxal de tudo isto é que quisemos construir uma realidade que nos tornasse mais livres e com mais tempo e que nos aproximasse mais uns dos outros e o resultado foi precisamente o contrário.

Se a evolução trouxe coisas excelentes e cujo proveito para a humanidade é inquestionável o mau uso que fizemos da maioria delas está bem patente na forma como nos enchemos, dia após dia, de tanta coisa inútil.

Não há nada de novo debaixo do Sol. E ás vezes nem sei bem se evoluímos. Como dizia um amigo: estamos mais sofisticados, é certo, mas o instinto que movia o homem na idade da pedra, de pegar num calhau e atirá-lo contra quem não gostava e o que move o homem de hoje, de pegar em mísseis e lançá-los contra o inimigo, pode ser que não seja muito diferente.

Temos medo. Medo de abandonar tudo isso e viver de uma outra forma. Em que os homens não tenham de parecer fortes e as mulheres não se tenham que preocupar com o batom enquanto estão a comer ou quando beijam.

Avançamos muito depressa. Cada vez mais rápido.

Deixámos de escutar o suave murmúrio que nos diz para parar e olharmos para nós. Para o que estamos a construir dos nossos dias. Das nossas vidas.

E talvez não seja assim tão complicado. Talvez não esteja assim tão longe.
Talvez parar de tentar ser tudo o resto menos nós mesmos seja um bom começo.

Afinal, o caminho que escolhemos depende mesmo de nós.

3 comentários:

Marie Anne disse...

Delicio-me a ler o que pensas em formas de palavras, encaixa tão perfeitame na maneira como penso, que até sinto ar fresco.

Não é fácil explicar as vezes, e muitas vezes deixei-me fugir de mim mesma pelo medo de não entenderem. Chama-se a isto uma perfeita parvoíce, mas melhor diria que são formas de aprender a dar maior consideração a mim mesma e a deixar ser-me tal como sou, porque senão nem vivia com a respiração certa.

E o facto de o teres feito, ensinou-me algo mais. Que afinal existem pessoas que pensam como eu, e que ao estar a reprimir, vou estar a deixar de dar a palavra essencial a outra.



^^

Ricardo Antunes disse...

Obrigado pelo teu comentário :)
Muitas vezes é a dificuldade que temos em exprimir-nos que nos torna vencedores assim que o fazemos.
De nada serve estarmos fechados em nós mesmos. Partilhar o que somos com os outros é uma das formas mais "reais" de viver.
beijinhos.

Adriana ♣* disse...

O medo nos enjaula...

Mas se algum dia, por um breve instante, você sentir o vento batendo no seu rosto...

Atenção!

É a vida te chamando para dançar...

Dançar conforme a música imposta?

Não! Dançar a sua música... a que você ouve, sente, vive...

Não acho que está tão longe... afinal, depende de nós!

É só permirtir-se sentir...

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."

Carlos Drummond de Andrade