Excerto do 1º capítulo do livro "Onde está o branco em ti?"

Tudo estava normal. A nossa vida não era diferente da de muitas outras pessoas do mundo. Mas um dia, um terrível bilhete, encontrado junto a um corpo inerte em cima duma cama, viria a alterar essa situação para sempre.

Amigos:

Estou sozinho, à beira do abismo e da noite escura. Sinto-me vazio e não consigo encontrar nada que preencha a solidão que me destroça o peito.
É difícil começar, sobretudo quando estamos no princípio do fim. Quando todos estiverem a ler esta carta eu já não estarei cá.
Gostei muito de cada momento que passei com vocês. De grandes conversas, de grandes passeios, de grandes coisas que fizemos em conjunto. Tive dias muito felizes ao vosso lado. Gostei de saber que a minha vida tocou a vossa de alguma maneira. Só perto de vocês consegui ter alguma felicidade. Aprendi tanto com vocês que nunca vos pude devolver tudo aquilo que me deram.
Obrigado por tudo, pelas recordações, pelas ilusões, pelos sonhos, pelos conselhos. Obrigado pelos vossos sábios olhares e pelos sorrisos enternecedores. Obrigado por chorarem, e deixarem que eu chore também.
Desculpem ter-vos deixado sem despedida, mas não quis tornar as coisas ainda mais dolorosas para todos nós.
Infelizmente, já não dá mais para viver.
Adeus,
Pedro.

*
Chove intensamente, o caixão está a descer. Por entre as lágrimas de alguns e a revolta de todos, o meu pensamento dirige-se para cada um daqueles que vieram dizer um último adeus ao Pedro. A sua morte chocou-nos a todos, ninguém sabe bem o que dizer, talvez por ainda acreditarmos que isto é um pesadelo e que quando acordarmos amanhã, tudo vai voltar a ser igual.
Ninguém quis faltar. É natural, o enterro de hoje não é apenas o do Pedro, mas também de parte das nossas vidas e dos nossos sonhos. Não sei o que fazer ou o que pensar. Pergunto-me a mim próprio se tudo isto fará realmente sentido, se será justo alguém morrer tão jovem, com tantos objectivos por realizar, com tantas decisões por tomar, com um milhão de experiências por viver.
Estou encharcado. Não me sinto com forças para fazer nada, tenho a sensação de que o mundo parou e que não o vou conseguir voltar a fazer andar. Sempre soube o passo a dar, mas agora... estagnei. Não sei que rumo hei-de tomar, não sei o que vou fazer amanhã, e o pior de tudo é que não estou preocupado com isso. A realidade é que todos nós sentimos o vazio que a falta do Pedro nos provoca, e embora a morte seja a única coisa que temos certa desde o primeiro dia da nossa vida, nunca estamos preparados para ela.
Não consigo compreender ainda o porquê das coisas se terem passado desta forma, aliás não sei se algum dia chegarei a perceber. O espaço que ele deixou ficará para sempre por preencher, tal como o vazio que a morte prematura dele nos deixou no coração. É difícil aceitar que nunca mais voltaremos a ver alguém que nos habituámos a ter ao nosso lado desde sempre, nos bons e nos maus momentos, alguém com quem rimos e chorámos, alguém que nos deu muito sem pedir nada em troca, alguém que agora nos deixou sós... à espera do fim.
Os coveiros cobrem agora o caixão com terra. A chuva, constante, purifica este momento final. A Ana chora, abraçada à mãe inconsolável, a Susana agarrou a minha mão com força e conteve uma lágrima, o Miguel e o Jorge mantém a postura e serenidade característica dos homens fortes, e embora o sintam tão ou mais dolorosamente que os restantes, são aqueles que acalmam a situação. O Luís não disse uma palavra durante todo o dia, e o Paulo, calado, desvia o olhar para uma velha senhora que deposita flores numa campa próxima. Fá-lo com um cheirinho a saudade e a nostalgia, algo que com a velhice se torna mais próximo, talvez porque se tem mais tempo para pensar nisso e porque o fim parece mais perto.
As coroas de flores já estão por cima do monte de terra, negra, tal como o nosso estado de espírito. Uma fita a dizer "Até breve amigo, nós vemo-nos por aí, quem sabe... no céu" foi de todas a única que fixei na memória.
A caminho de casa pus-me a pensar como seria bom poder pôr um anúncio no jornal a dizer: Procura-se amigo, nobre e honesto, simpático, com uma maneira de ser muito própria, está sempre connosco quando dele mais precisamos, enfim o melhor de todos. A quem o tiver pede-se o favor de o devolver.
Hoje deve ser a primeira sexta-feira ao longo destes anos em que não vamos sair todos juntos à noite, e o que me assusta mais é que eu, pela primeira vez, também não estou com vontade nenhuma de ir. Pois é, muita coisa mudou com a morte do Pedro, dá vontade de chorar, não sei se pela perda do amigo, se por não perceber o porquê da sua morte.
À noite telefonei à Ana para a convidar a ir sair comigo, para falar com ela e tentar compreender um pouco melhor tudo isto (se é que existe alguma coisa para compreender) e tentar fazer com que a tristeza dela, pela morte do irmão, seja um pouco amenizada.
Vou-me deitar. Pode ser que amanhã acorde e tudo esteja como dantes.

16 comentários:

da cor da imaginação.C.V.M. disse...

Ola Ricardo, confesso-me desejosa de comprar o teu livro este pequeno excerto já diz muito, já fala ao coração... Espero que o teu romance me ensine a força de ver o branco de cada um.*

Ricardo Antunes disse...

Espero que sim. Espero que possas ler e que as minhas palavras te possam acompanhar nos caminhos que escolheres percorrer na tua vida.
beijinhos e obrigado pelas palavras.

Eliana disse...

Olá Ricardo. Eu já li o teu livro à cerca de um ano e foi o melhor livro que li até hoje, o que me tocou mais, sem sombra de duvida! É daqueles livros que lemos e fica gravado no coração. É profundo..
E hoje, vim à net procurar um excerto, para amanhã ler numa aula no "Momento de Partilha de Leitura".. Espero que os meus colegas gostem e com sorte leiam este teu livro maravilhoso! Continuação. Bjinhos. Eliana

Ricardo Antunes disse...

Obrigado Eliana! Fico grato pelas tuas palavras e emocionado por teres gostado. Espero que tenha corrido bem a aula e que tenhas conseguido transmitir o que te fez gostar do livro. Isso é o mais importante. Se precisares de alguma coisa fica à vontade. beijinhos.

Anónimo disse...

Ola..sinceramente nao conhecia o teu livro..fiquei a conhece-lo hoje por uma colega minha,confesso que estas palavras do teu excerto me dizem mais que qualquer outras na minha vida, isto porque no dia 1 de dezembro de 2009 vi partir o homem que mais amei na vida, foi uma perda irreparavel e nao sei como continuar a viver sem ele, por esta altura ja passou 1 mês desde essa perda e a unica coisa que me mantem de pe é o apoio dos meus amigos. Sem eles acho que nao seria possivel. Por vezes ainda me lembro dele, como se ele estivesse neste preciso momento aqui ao meu lado. Nunca pensei ter de suportar uma dor destas, isto porque era ele que me apoiava nos meu sonhos, nos meus objectivos, resumindo nunca me deixava desistir daquilo em que eu acreditava. Adorei o teu excerto..E com certeza vou ler o teu livro. TS!

Ricardo Antunes disse...

Olá TS,

Obrigado.

Realmente não há muito a dizer numa situação dessas. A dor é inevitável. Cada um acaba por tentar superar os dias da forma que melhor consegue e sabe.
Mas fica a saber que existe esperança mesmo na noite mais escura. Mesmo que não a consigas ver agora.

Lê o livro. E diz-me o que achaste.

beijinho

Ricardo

Pensamentos: disse...

Este livro é sem dúvida o meu preferido!
Depois de o ler passei a ter mais vontade de ler livros.
Aconselho todos os meus amigos a lerem, pois sei que eles não gostam muito de ler, mas este livro vale mesmo a pena.

Estou anciosa por ler outro livro seu, mas compreendo que não se escreve um livro de um dia para o outro.

Parabéns pelo livro. (:

Ricardo Antunes disse...

Obrigado pelos Pensamentos!

Espero poder publicar novo livro para breve... o grande problema é a disciplina de passar dos pensamentos e imagens que se tem guardado na memória para o papel propriamente dito.
Mas com tempo se vai lá.

Ricardo

Adriana ♣* disse...

Depois de ler o excerto e ler todos esses comentários, tu já podes imaginar, que fiquei com mais vontade de ler o livro...

Abs,

Adriana

Marisa disse...

Encontrei por acaso o blog e comecei a ler.Fiquei completamente abismada!
parabéns! :)
bj*

Ricardo Antunes disse...

Olá Marisa,
Os acasos acontecem, e, neste caso, ainda bem. Fico contente por teres gostado e por teres deixado uma mensagem. Espero que continues a passar por cá de quando em vez, se te apetecer e continuares a gostar. :)
Um abraço!

Sandra disse...

Olá,

Comprei o teu livro ontem, já li o primeiro capítulo e estou a adorar. É um livro muito intenso e com uma linguagem muito simples e fácil de ler. Transmite de uma forma simples sentimentos que são sempre muito dificeis de expressar. Só alguém que vive intensamente o consegue fazer. Estou ansiosa por ler o livro. Adorei o titulo, mas não o entendi logo, só o entendi quando vi há pouco a tira de Calvin & Hobbes (que também adorei)e penso que tem a ver com o facto de cada dia ser uma página em branco pronta a ser pintada por nós.

Como disse o "da cor da imaginação.C.V.M." em 18 de Fev de 2009 tens uma linguagem que fala ao coração.

Ricardo Antunes disse...

Olá Sandra,
Obrigado por partilhares as tuas ideias e sensações. Obrigado pelos elogios e espero que continues a gostar da leitura. O branco, pode ser tudo o que tu quiseres, mas, para mim, é também o primeiro passo para se começar algo novo. ;)
beijinho.

Sandra disse...

Gostei muito do livro!
Prende do início ao fim.
Transmite-nos muitas lições de vida e lembra-nos de uma coisa que nos parece sempre muito dificil:
Seguir os nossos Sonhos sempre, e sem medo!
É apaixonante!
Parabéns!

Ricardo Antunes disse...

Sandra, ficaste mesmo presa ao livro. Para o leres em tão pouco tempo:) Muitas das lições de vida de que falas foram também aquelas que fui aprendendo ao longo do caminho. E continuo.
Afinal a vida é uma grande aprendizagem.
Seguir os nossos sonhos? Sempre!
Beijinhos.

sandra disse...

Olá!
Sim, não descansei enquanto não o li :)
Adorei.
De facto sente-se um pouco de ti no livro, talvez seja por isso que o livro atrai tanto, o saber que se trata de emoções que alguém sentiu na realidade.
É bom sabermos que aquilo que nos acontece também acontece no percurso de vida de outras pessoas (de todos). Embora muitas pessoas não o consigam transmitir por palavras, nem consigam entender na realidade que tudo o que lhes acontece de menos bom é necessário, e que é isso que os torna pessoas melhores. Quando entederem isso desta maneira, e não com uma atitude negativa, vão ser mais felizes.
Obrigada!