Entrevista

1. Onde está o branco em ti? é o seu primeiro livro?

R: Sim, é o meu primeiro e estou muito satisfeito com a reacção positiva que está a merecer por parte do público em geral.

2. Não é propriamente um romance… Será a tentativa de um ensaio, digamos, filosófico, em tom narrativo e ficcionado?

R: Sinceramente não sinto a necessidade de catalogar as coisas... romance, conto, ensaio filosófico, sei lá... “Onde está o branco em ti?” é uma história simples a respeito da vida. Da vida verdadeira, real e inevitável de todos os dias. Claro que também é um livro que procura um sentido, uma razão para as coisas que fazemos a cada momento. De certa maneira, procura reflectir a respeito da forma como decidimos viver a nossa vida e de como encaramos a amizade, o amor, as coisas simples da vida. O que nos faz feliz mas também o que nos deixa triste.

3. A quem se dirige o livro?

R: De uma maneira geral a um público jovem, porque fala de jovens, mas sobretudo por que aborda questões essenciais com que se depara quem tem que tomar decisões que irão influenciar para sempre a sua vida. Claro que nesta perspectiva, também poderá ser bastante interessante para todos aqueles que, seja qual for a sua idade, se interessem por esta temática.

4. A sua leitura deixa uma mensagem bastante explícita: de certa forma quase que encaminha o leitor para um exercício de auto-conhecimento, no intuito de encontrar o seu próprio rumo, e o sentido para a vida, o que é uma aproximação ao existencialismo. Porque é que o tema em si, muito rico, não foi melhor desenvolvido no enredo e nas personagens? Parece-me que lhe foi difícil essa abordagem, e a acção precipita-se cada vez mais e exageradamente centrada na personagem principal… Não acha que poderia ter expandido a escrita do livro, traçar bem as críticas sociais que faz, etc…?

R: Acho interessante a análise que fazem a respeito da mensagem contida no livro... e, tentando responder às perguntas, na altura em que escrevi, as coisas saíram assim e creio que não vale a pena estar a perguntar-me exaustivamente porque é que foi desta forma e não de outra. Sei que a única forma de fazer as coisas bem é fazê-las de uma forma honesta. O livro e a sua construção decorrem da forma como o vivi e senti na altura em que o escrevi. Seguramente que poderia ser bastante enriquecido em inúmeros aspectos (senão em todos) mas isso não é o mais importante agora. O que realmente importa é saber se de alguma forma o livro conseguiu chegar às pessoas e provocar reacções positivas de questionamento a respeito daquilo que somos e daquilo que pretendemos fazer das nossas vidas. Eu sinceramente acho que esse objectivo foi conseguido e isso deixa-me, por si só, tremendamente satisfeito. Quanto às falhas, elas são naturais, e se existem momentos em que estamos tremendamente inspirados, outros há, em que simplesmente as coisas não nos saem. Acredito sinceramente que as partes menos conseguidas do livro são colmatadas com aquelas que saíram melhor e que, no fim de tudo, as coisas acabaram por correr bem.

5. Quais são as suas leituras habituais?

R: Prefiro não particularizar temas ou autores. Leio tudo o que me desperta a atenção.

6. Escreve outros estilos, ainda que para a gaveta, como poesia, contos, ensaios?

R: Sim. Gosto muito de escrever. Seja o que for.


7. O livro foi editado pela Coolbooks que, a ver pelo seu site, tem um leque muito pequeno de autores, todos eles inéditos ou pouco conhecidos… Como foi que aconteceu publicar-se na Coolbooks; pode e sabe dizer-nos algo sobre esta editora?

R: Essa é a pergunta mais fácil. A Coolbooks tem um site na internet onde se propõem receber inéditos de autores que queiram ver publicados os seus textos. Como o livro já estava praticamente terminado há cerca de 3/4 anos e achei que valia a pena ser publicado, decidi enviar um e-mail a propô-lo. Algum tempo depois recebi um contacto do responsável da editora para uma conversa a respeito da sua possível publicação e chegámos a acordo para a sua publicação.

8. Voltando ao conteúdo de Onde está o branco em ti?, considera que em cada um de nós existe o tal branco, a pureza inicial? Não acha que isso se vai perdendo no indivíduo, à medida que cresce na sociedade?

R: Acho que existe muita coisa externa a nós que nos procura afastar do “branco” mas sei também que nós o podemos fazer de várias formas. A culpa não é do mundo. O mundo é apenas o que é e cumpre a sua função. Tudo depende de nós e do anseio que nos orienta. Existem muitas pessoas no mundo que procuram encontrar-se a si mesmas e que procuram a cada instante estar onde sentem interiormente que devem estar. O que as move? O que nos move a todos?
Eu acredito que existe algo em nós que é imutável, profundo e eterno. Decidi chamar-lhe o “branco em nós”.
Sei que existe muita coisa que nos impede de sermos verdadeiramente felizes mas sei também que existem mil coisas que nos dão ânimo e ajudam a descobrir quem somos de verdade. O “branco” existe e está disponível nas nossas vidas e ao alcance de todos.

9. A personagem principal, Alexandre. Ao que parece, deu-lhe uma vida facilitada, para quem anda em peregrinação de si próprio. Falo de coisas simples, como alimentar-se, passar temporadas em casa de familiares do amigo que faleceu, e outras coisas. Como ultrapassaria tudo isto se a personagem tivesse a vida mais dificultada, se tivesse havido mais entraves, não seria mais realista e menos… naïf?

R: Para mim parece-me real. Nada naif até. O Alexandre, vivia com os pais e estudava, depois foi trabalhar. Ganhou dinheiro que podia utilizar para viajar. Passou tempos em casa de pessoas conhecidas... Sinceramente não me parece de todo impossível viver da forma como o Alexandre vivia. Basta querer. (E, além disso, não nos podemos esquecer que a história acaba numa fase que ele ainda é jovem e não sabemos o que ele fez daí em diante).

10. O episódio do pivot de telejornal é que saiu muito ingénuo. Toda a gente sabe que nunca é com um casting que se consegue ser um pivot de telejornal…

R: Reconheço que sim. Reconheço que esta é uma daquelas passagens do livro que realmente poderia ter sido melhor construída. Paciência. (Um aparte: ao que sei, não é assim tão improvável ser-se escolhido para apresentador através de um casting).

11. Quais são ou foram, para si, no decorrer do processo da escrita e depois, no produto final, as aspectos positivos e negativos do seu livro?

R: Positiva foi a receptividade das pessoas. Foi muito reconfortante receber imensos cumprimentos pessoais e por e-mail de conhecidos e de desconhecidos. Ao fim de dois meses haver a necessidade de sair uma segunda edição do livro, também foi muito bom.
Aspectos negativos, honestamente, não me lembro de nenhum.

12. Tenciona continuar a escrever?

R: Sim e pretendo passar brevemente das intenções às acções.

13. Porquê a escrita? Uma necessidade, ou uma ferramenta?

R: Escrevo porque me apetece e porque me sinto bem ao fazê-lo. Gosto também de partilhar o que escrevo com os outros. Se alguém, de alguma forma se sente ligado ao que escrevi, aí então, é espectacular. No fim de tudo, acho que o mais importante é fazer-se o que se gosta. Façamo-lo todos e sejamos felizes.

14. Que conselhos dá a quem tenciona publicar o seu primeiro livro?

R: Antes de tudo, sejam honestos no que escrevem. Não inventem muito nem tentem ser o que não são ou escrever de uma forma que não é a vossa. Depois, em termos práticos junto das editoras, ou se tem conhecimentos ou se tem uma grande sorte para que o livro seja publicado. Se têm conhecimentos, espectacular! Se não têm, e têm sorte, espectacular também! Se não têm conhecimentos nem sorte, o melhor é lutarem muito e tratarem de se dar a conhecer às pessoas que decidem as coisas. Depois talvez tenham a pontinha de sorte do texto agradar e de ser escolhido para ser publicado. Podem também escolher fazer uma “edição de autor” investido no vosso próprio livro, mas normalmente é muito difícil fazer uma eficiente distribuição nas livrarias.

15. Obrigado pela entrevista.

R: Obrigado também e força para os vossos projectos.

(entrevista dada em 2004 para um site de literatura)

4 comentários:

Andreia disse...

Aguardo o segundo livro á anos...

Ricardo Antunes disse...

Também eu... :)

Adriana ♣* disse...

E eu também! ;)
Apesar de ainda nem ter lido o primeiro...

Abs,

Adriana

Ricardo Antunes disse...

:)